z-logo
open-access-imgOpen Access
Sob a tutela do Grande Irmão
Author(s) -
Marco Antônio Guimarães Da Silva
Publication year - 2018
Publication title -
fisioterapia brasil
Language(s) - Portuguese
Resource type - Journals
eISSN - 2526-9747
pISSN - 1518-9740
DOI - 10.33233/fb.v8i2.1845
Subject(s) - humanities , philosophy , brother , political science , law
No momento inicial do curso de Recuperação funcional baseada em evidências, que ainda ministro em cursos de pós-graduação, tenho o hábito de fazer uma aparente digressão: remeto-me ao passado e lembro do filme o "Mágico de Oz", para falar sobre a importância da pergunta na pesquisa. Esclareço: no filme, ao dar-se conta de que deveria encontrar a cidade encantada, a pequena Dorothy pergunta a Glenda (bruxinha boa) por onde deveria começar para encontrar a tal cidade. A resposta de Glenda: todo bom começo é sempre uma boa pergunta. Analogia í  parte, a idéia é mostrar que uma boa pesquisa tem que ser sempre precedida de uma boa pergunta. Um exemplo que dou no curso já é um clássico: será que existe relação entre um programa X de televisão e o aumento do grau de violência em crianças? Ato contínuo, antes de, no curso, trabalhar esse exemplo (para descontração), lanço uma outra pergunta: Será que o programa "Grande Irmão", que a rede Globo insiste em denominar de "Big Brother", contribui para aumentar o grau de idiotização e alienação de uma população? No contexto da aula, uso os exemplos a fim de, didaticamente, ilustrar a importância que uma boa pergunta representa para a uma boa pesquisa.Aproveitando o fato de que, nos últimos dias, passei diante do Hospital Egas Muniz, em Lisboa, - cujo nome me remete í  lobotomia e, derivativamente, para alienação imposta - estabeleço o elo que precisava para dar o rumo, sem perder o prumo, para este editorial. Tento, portanto, refletir, e espero também induzir desde logo o leitor í  reflexão, sobre o porquê de os resultados do IBOPE para o "Grande Irmão" conseguirem alcançar tão incríveis níveis de audiência. Satisfazer í  curiosidade descobrindo o que faz o vizinho ao lado sempre foi um divertido passatempo de pessoas que viviam em comunidades menores. O habitar em um grande centro, em edifícios de apartamentos que impõem um certo isolamento, terminaria por se constituir em uma barreira natural que acabaria por matar o hábito da curiosidade sobre alheia. Mas parece que as idéias sobre as nossas privacidades andaram mudando e muito.Afinal, de onde surgiu a idéia de alimentar toda uma população, ou parte dela, com a matéria prima bisbilhotice?Em 1991, o projeto Biosfera II, precursor dos reality show, retratava a experiência de um grupo de cientistas, com transmissão pela TV, que se isolaram em uma casa sobrevivendo apenas ao que lá existia.O surgimento da internet e das webcams otimizou a transmissão e permitiu que, em qualquer parte do mundo, o internauta tivesse acesso, com permissão consentida, í s imagens transmitidas desde a intimidade da casa do transmissor. A experiência pioneira com a webcam deve ser creditada Jennifer Ringley. O cinema também oferece a sua contribuição para o tema em questão e o filme O show de Truman faz na telona uma releitura de George Orwell.De Volta ao "Grande Irmão" da aldeia global, e desde já pedindo desculpas pelas heresias sociológicas que venha a cometer, tomo a ousadia de usar Weber para citar dois aspectos relacionados a esse flagelo que vem tomando o nosso cotidiano, já tão sobrecarregado de desgraças, e que devem ser considerados para as futuras reflexões.O primeiro desses aspectos refere-se ao poder, entendendo-se aqui o poder como as oportunidades que a aldeia global utiliza para impor sua vontade sobre a vontade dos globalizados, servindo-se "magnificamente" do fascínio que a mídia exerce sobre os "lobotomizados". O publico alvo, aqui caracterizado como pacientes metafóricos da técnica de Egas Muniz, aguarda ansiosa e diariamente o desenrolar de mais um capitulo muito bem editado mas que igualmente prima pelo grotescoO outro aspecto seria a troca entre a aldeia global e o globalizado, que aponta para todo um complexo sistema de forma de pagamento: você me oferece a oportunidade de compartilhar de uma medíocre rotina do dia-a-dia de um grupo de pessoas travestidas de pseudo-atores e, em contrapartida, eu assisto í s mediocridades ali transmitidas e, sobretudo, dou a minha contribuição financeira, telefonando para o programa e enchendo as burras do cofre da fonte transmissora.Estamos a ocupar um lugar de destaque como país cujos habitantes quando lêem não sabem interpretar e sequer entender o que leram. Sei que, de alguma forma, poderíamos direcionar a qualidade técnica e operacional de nossos veículos televisivos, que são concessões públicas, para, senão resolver, ao menos minimizar tal problema descrito. Sei também que a solução está muito longe dos programas de reality show.Cá ao meu modo, tenho oferecido a minha contribuição, omitindo propositalmente as indicações das citações que ocasionalmente utilizo em meus editoriais e, principalmente, escrevendo, para esta revista, textos que fogem í  regra do esperado como editorial de uma revista de fisioterapia. Desse modo, obrigo as meninas e os  gajos (influência lusitana também proposital) a pesquisarem sobre os autores e a verem as coisas com um olhar um pouco diferente daquele que fomos acostumados na área da fisioterapia. Assim, espero, como dizia Foucault, que o olho não permaneça nas coisas e se eleve até as visibilidades.Que tal mudarmos a proposta da sociedade do futuro, preconizada no livro "1984", tão atual em 2007, para uma sociedade que possa fazer aquilo que pensa e que foi fruto da sua reflexão, e não daquilo que nos é imposto, quase sempre como o resultado de um reflexo condicionado? 

The content you want is available to Zendy users.

Already have an account? Click here to sign in.
Having issues? You can contact us here
Accelerating Research

Address

John Eccles House
Robert Robinson Avenue,
Oxford Science Park, Oxford
OX4 4GP, United Kingdom