
A sobrevivência de Sikán: imagens de uma lembrança sagrada na obra de Belkis Ayón
Author(s) -
María Angélica Melendi
Publication year - 2019
Publication title -
aurora
Language(s) - Portuguese
Resource type - Journals
ISSN - 1982-6672
DOI - 10.23925/2019.v34.dossie2
Subject(s) - humanities , art
Este ensaio aborda a obra de uma artista cubana, Belkis Ayón (1967-1999), uma jovem negra, que, no breve tempo de sua vida, nos legou imagensperturbadoras, onde o sagrado excede os limites do mistério e do culto e se expandeno âmbito de uma vida comum e compartilhada. O tema da cultura abakuá, umasociedade secreta masculina que tem suas origens no longínquo Calabar, atravessaa iconografia da arte cubana. Tal vez, o primeiro expoente tenha sido o pintorespanhol Víctor Patricio de Landaluce, que residiu em La Habana até sua morte.No século XX, o culto abakuá, foi abordado por vários pintores cubanos: RenéPortocarrero, Mariano Rodríguez e sobre tudo Wifredo Lam. Belkis Ayón derivasó parcialmente dessa tradição: a pesar de acompanhar as cerimonias públicas eestudar os relatos da tradição abakuá nas obras de Lydia Cabrera, Fernando Ortiz eEnrique Sosa Rodríguez, a artista concebe, grava e imprime imagens que provêmde uma memória sagrada e ancestral. Ela imagina imagens a partir do relatoprimordial e assim oferece a Sikán uma sobrevida que excede o espaço restritopor onde espalha-se um secreto nascido à beira do rio Oyono, na Nigéria. Vinteanos depois da morte de Ayón, podemos detectar na sua obra as problemáticascontemporâneas de gênero, etnia, situação social e exclusão. Uma mulher capturao som com que se evoca o espírito e, por isso, é sacrificada. Será necessária outramulher para dar imagem e voz à lembrança sagrada sequestrada e apropriadapelos homens.