
Orson Welles encara Kafka: mirando a lente para o suspeito
Author(s) -
Kim Amaral Bueno
Publication year - 2016
Publication title -
organon
Language(s) - Portuguese
Resource type - Journals
eISSN - 2238-8915
pISSN - 0102-6267
DOI - 10.22456/2238-8915.65368
Subject(s) - humanities , art
Este artigo analisa a leitura fílmica realizada por Orson Welles (1962) da obra O processo, de Franz Kafka. Em filme homônimo ao romance, o narrador onisciente de Kafka é “pluralizado” e problematizado dentro da diegese cinematográfica através da bifurcação da posição do narrador aperada pela duplicata da voz over (que apresenta o prólogo fílmico e os créditos finais) e as vozes off e in dentro da narrativa, cuja “origem” enunciativa pode ser identificada na figura da personagem “advogado”, subnarrador responsável pela parábola “Diante da lei”. A voz over, ponto fixo sonoro que abre a película, pode ser associada ao ponto fixo visual produzido pela câmera contra-plongée, típica de Welles. O espanto do protagonista frente aos quadros pintados por Titorelli assemelha-se ao espanto diante do absurdo do seu processo: o limiar entre o visível e o invisível aproxima-se daquele que determina a justiça e a injustiça. Diante do absurdo que o abala, resta ao protagonista indagar aos seus algozes “sobre o teatro ao qual pertencem”, uma vez que os seus questionamentos acerca da “objetividade” dos fatos foram soterrados pelo poder.