
Judaísmo, medicina e literatura: ética médica judaica em A majestade do Xingu, de Moacyr Scliar
Author(s) -
Fernando Oliveira Santana Júnior
Publication year - 2012
Publication title -
arquivo maaravi
Language(s) - Portuguese
Resource type - Journals
ISSN - 1982-3053
DOI - 10.17851/1982-3053.6.11.38-61
Subject(s) - humanities , philosophy
O objetivo deste artigo é investigar as relações entre judaísmo, Medicina e literatura no romance A majestade do Xingu, do escritor judeu brasileiro Moacyr Scliar (1937-2011), obra publicada em 1997. Essas relações serão especificadas por meio do conceito judaico da relação médico-paciente no campo da ética médica judaica (uma área de aplicação da ética judaica). Na relação médico-paciente, em A majestade do Xingu, o uso literário da anamnese clínica, que gera uma illness narrative (KLEINMAN, 1988), é feito para problematizar a desumanização que ainda ocorre, infelizmente, nessa relação. Ademais, esse uso literário ocorre para ressignificar o conceito de doença e de paciente nos registros médicos, para se relacionar com a natureza humana do doente em sua inteireza, não apenas com a parte enferma dessa natureza. Nos termos de Arthur Kleinman, essa ressignificação, em síntese, mostra o ser humano enfermo a ser cuidado mais como sick person e menos como patient. Esse conceito dialoga com as reflexões de Maimônides sobre a relação médico-paciente, vendo a Medicina como saúde não só do corpo, como também da alma. No romance A majestade do Xingu, o narrador-paciente, dirigindo-se a um narratário-médico, numa UTI, e Noel Nutels, no cuidado médico com os índios do Xingu, seguindo as reflexões da ética médica judaica, colocam o leitor numa relação com a literatura como campo em que ética, estética, saúde e doença se fundem. Essa simbiose ocorre, nesse romance, para reflexão sobre a dignidade da vida humana no contexto da saúde e da doença, tendo a contribuição do Judaísmo por meio do imperativo ético legado pela Torá, interpretado pelos sábios no tratado talmúdico Pirkêi ‘Avôt, por exemplo.