
Uma suíte, sua entabulação e a poética do alaúde barroco: considerações sobre a Suite em Sol Menor BWV 995 de Johann Sebastian Bach
Author(s) -
Renato Cardoso
Publication year - 2016
Publication title -
revista música
Language(s) - Portuguese
Resource type - Journals
eISSN - 2238-7625
pISSN - 0103-5525
DOI - 10.11606/rm.v16i1.125016
Subject(s) - art , humanities , violin , philosophy , art history
Este trabalho trata da contraposição entre a Suite em Sol menor para alaúde barroco, BWV 995, de Johann Sebastian Bach, com o manuscrito de época feito por um entabulador anônimo, conforme documentada no chamado Manuscrito de Leipzig (Coleção Becker III. 11. 3). Parte-se da ideia de que há um desalinhamento entre a obra concebida pelo compositor e a tradição instrumental na qual ela seria executada. Através de um procedimento comparativo de fontes, essa diferença será analisada em três tópicos: alteração do texto para fins de exequibilidade ao alaúde (supressão de notas, transposição de oitava, deslocamento rítmico); ornamentação (uníssonos alaudísticos, adição substanciosa de ornamentos, ornamentação do sujeito na fuga); articulação (ligados técnicos, de textura e fraseológicos, overlegato, articulação assimétrica). Dada a qualidade da adaptação à tablatura, é de conjectura entre musicólogos que o autor dessa entabulação seja um alaudista de alto nível profissional, do calibre de compositores como Silvius Leopold Weiss (1687 – 1750) ou Adam Falkenhagen (1697 – 1761), o que faz dessa fonte documental um marco qualitativo da prática interpretativa do barroco tardio. A reflexão empreendida busca valorizar a poética interpretativa da tradição alaudística no barroco, considerando sua particularidade criativa de se conceber a prática musical. Argumenta-se que fontes primárias como esta sejam de grande relevância para se entender mais de uma tradição instrumental, fruto da vida social dos músicos da época, e que elas devem ter um status privilegiado na abordagem da performance historicamente orientada.