Abdias do Nascimento: denúncias, críticas e propostas sobre o isolamento do intelectual negro (1968 – 1980)
Author(s) -
Diogo Valmor Pereira,
MARIO AUGUSTO MEDEIROS DA SILVA
Publication year - 2017
Publication title -
anais do congresso de iniciação científica da unicamp
Language(s) - Portuguese
Resource type - Conference proceedings
ISSN - 2447-5114
DOI - 10.19146/pibic-2017-77875
Subject(s) - computer science
Resumo A presente pesquisa tem como objetivo entender o isolamento, marginalidade e uma política de esquecimento que os intelectuais negros enfrentam no campo acadêmico brasileiro. Compreender a contribuição histórica dessa intelectualidade negra e sua dificuldade de consolidação, a sua exclusão – na produção acadêmica – além do contexto político/intelectual em que estas foram produzidas. Palavras-chave: Isolamento; Intelectuais negros; Abdias do Nascimento. Introdução Abdias do Nascimento começa a sua obra, Dramas para negros e prólogo para Brancos – antologia de teatro negro-brasileiro, lançada em 1961, com uma pergunta muito pertinente no que tange o drama de ser negro no cotidiano e a inexistência de peças elaboradas para atores negros na dramaturgia brasileira, sintetizando o tom do debate que irá se suceder em toda a obra e que tentaremos reconstruir nesse projeto: “Será a condição de negro e de africano estranho ao drama?” (NASCIMENTO, 1961. p. 09. Grifos meus). Quais as condições de ser negro no Brasil que Abdias relaciona com a dramaturgia do teatro brasileiro? Poderia essa condição ser extrapolada para outros campos de análise? Será a condição do negro, enquanto pesquisador e intelectual, estranha ao meio acadêmico? Se a resposta que vem em nossas mentes é de que não, o que pode explicar a pouca discussão e rotinização de professores, pesquisadores e intelectuais negros nas universidades brasileiras? O que explica o esquecimento do próprio Abdias e sua importância no esforço de constituição de uma intelectualidade negra? No presente projeto de pesquisa investigamos as formas de esquecimento e isolamento denunciadas por Abdias do Nascimento no campo da dramaturgia, onde posteriormente voltamos para a universidade brasileira, fazendo um recorte temporal que vai do período de 1968 ao de 1980. Período delimitado por duas obras importantes do autor, uma que marca o começo do exílio de Abdias nos Estados Unidos – O Negro Revoltado, de 1968 – e uma segunda que delimita o fim desse ciclo – O Quilombismo: documentos de uma militância pan-africanista, de 1980. Resultados e Discussão Quando Abdias foi para o autoexílio no contexto da ditadura civil-militar, ele não era considerado um intelectual, era mais reconhecido como um artista militante, devido a sua proximidade com o Teatro Experimental do Negro, fundado por ele em 1944. No exílio foi convidado para palestrar nas universidades americanas sobre a sua experiência com o teatro no Brasil, com isso ganhou destaque no meio acadêmico norte-americano, consolidando sua carreira de professor universitário, algo que não aconteceu no Brasil. Ao retornar do exílio, Abdias tenta se consolidar como um intelectual Pan-Africanista. Contudo, existe no Brasil uma forma de se operar a circulação de debates proposto por intelectuais negros, isso é condicionado por diversos fatores, lugar de destaque que esse intelectual ocupa, como universidades e instituições. Isso impede que se crie um real rede de circulação de ideias, onde aqueles que não conseguem entrar em uma determinada rede de citações sofrem com a legitimação desse próprio sistema de circulação de ideias. São poucos intelectuais negros que são citados em trabalhos acadêmicos, “muitas vezes fala-se mais sobre eles a partir de sua mobilidade social do que suas ideias ou teorias” (DAMACENO, 2013). Assim, o que parece interferir neste processo de produção acadêmica sobre o negro é uma espécie de pacto, um acordo tácito entre os brancos de não se reconhecerem como parte absoluta e essencial na permanência das desigualdades raciais no Brasil. A pergunta que fica no ar, como interromper esse processo de produção e reprodução deturpada das relações raciais, herdadas de gerações passadas e ainda vigentes nos meio de intelectuais acadêmicos brancos? A solução está em estudos que foquem nas propostas de transformações colocadas por esses autores marginalizados. Dar um novo sentido para a história sem a fantasia dos poderosos, reposicionando concretamente as relações raciais em nosso meio acadêmico. Conclusão Quando se fala que Abdias foi esquecido no “panteão dos grandes intelectuais brasileiros”, não se está apenas reivindicando um título. Existe uma questão político-social pouco explicitada neste questionamento. Na verdade, questionar o esquecimento de um autor negro é questionar o esquecimento de todos os autores negros na história da cultura acadêmica brasileira. Embora exista no Brasil um campo de “estudos das relações raciais” que tem como base os estudos sobre negros, deve-se questionar o que significa e como explicar essa “política do esquecimento” ou isolamento dos intelectuais negros. Agradecimentos Agradeço ao meu orientador Mário Augusto Medeiros pela excelente orientação. A minha mãe Lúcia Ap. Lopes, meu irmão Lucas Valmor e minha irmã Juliana Cristina, In memoriam. Patricia Bonani, companheira inestimável, agradeço por estar presente em todos os momentos desse projeto. Essa pesquisa foi financia pelo SAE/UNICAMP. 1 DAMACENO, Janaína. Os Segredos de Virgínia: Estudo de Atitudes e Teorias Raciais na São Paulo dos anos 1940-1950. [Tese de doutorado] PPGAS\ USP, 2013. 2 NASCIMENTO, Abdias do. O Negro Revoltado. 2. ed. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 1982. 3 . O quilombismo: documentos de uma militância pan-africanista. Petrópolis: Vozes, 1980.
Accelerating Research
Robert Robinson Avenue,
Oxford Science Park, Oxford
OX4 4GP, United Kingdom
Address
John Eccles HouseRobert Robinson Avenue,
Oxford Science Park, Oxford
OX4 4GP, United Kingdom